09/02/2010

Não é normal...

... olhar para cima e ver o preto. Sempre aqui é aquela cor dourada-suja, do reflexo das luzes da cidade na nuvem que ainda não é de chuva, mas que aguarda sua apoteose na hora do rush do dia seguinte.

E preto eu já tinha esquecido como era, assim como azul. Bom, azul é preto, só que de dia...

Mas aí eu olho pra cima e vejo que além do preto existem estrelas. E isso é tão raro que chega a ser esquisito. Mas pior que isso é que hoje eu percebi uma coisa que durante trinta e um anos me disseram e eu nunca consegui ver: elas tem cores diferentes. Tem uma bolota ali vermelha. Ela deve ser uma bolota, mas eu vejo estrelado pela miopia. Acho que metade da capacidade de uma pessoa de ver estrelas no céu está concentrada na sua falta de capacidade de convergir a luz corretamente. Mas é vermelha, ou passou a ser. E mais, não é só ela, tem várias delas. E tem várias outras que eu só vejo com o canto do olho, se eu miro nela, perco de vista.

E estão todas lá, inertes e estáticas, a imperceptíveis dez ou quinze quilômetros por segundo. Todas elas girando em torno de algum sol que agora dorme e aproveitando para desfilar o raro momento onde a lua, aquela soberba umbigocêntrica, se ausenta.


Foi a primeira coisa em muitos anos que me fez dormir uma noite com a luz e com a televisão apagadas.

02/02/2010

Procurando alguns pontos de equilíbrio entre meus credos pessoais, acabei chegando a uma conclusão difícil de tragar. Assustadora pela sua natureza, mas reconfortante em outros aspectos. Decidi finalmente crer em fantasmas. Mas em fantasmas, apenas. Não acredito em vida após a morte. O erro no caso seria pensar que há uma relação direta entre a morte e o fantasma. Muito embora a morte possa criar fantasmas, eles não se relacionam diretamente.

Na verdade acabei por acreditar que eu mesmo sou um fantasma. Sei que tem gente que se me visse agora, assim do nada, ficaria pálida e teria as reações bizarras de pane cerebral que configuram perfeitamente o comportamento esperado de quem vê fantasmas. Ainda mais, creio em gente que se perturba comigo, que me mantém guardado no espaço metafísico que existe entre o embaixo da cama e o limbo da memória. Que me vê em sonhos e acorda suando frio. E tem quem acredita na minha existência e ao mesmo tempo, talvez por medo, me negue.

E aquela imagem que temos de fantasmas, sempre demonstrando agonia ou desespero, por vezes também é a minha. E muitas vezes sinto que sou translúcido tal qual o estereótipo mais comum - que não consigo desaparecer de todo, mas também nunca sou inteiramente visto. E de relance na rua ou em algum lugar, a pessoa atormentada acha que me viu e toma susto, mas era só impressão, nunca estive lá.

Fantasma é vivo mesmo. Ou não, não é nem vivo nem morto. Mesmo porque, ao que aparenta, fantasmas têm seus fantasmas também, recursivamente, ou até quiçá reciprocamente.

Agora entendo melhor porque os filmes de fantasmas não me apavoram mais.

29/01/2010

Comunique-se com o futuro

Suponha que você tenha algo realmente muito importante a ser dito para os que viverem na Terra em um futuro longínquo. Sua mensagem deve permanecer gravada, à prova do tempo, da água e do fogo, pelo máximo de tempo possível.

Perceba que os manuscritos do mar morto não são um bom exemplo, já que não durarão muitos milênios mais, uma vez que foram reintegrados à sociedade tão cedo.

Escreva na pedra. Entalhe as letras com formão.
Escreva, em algumas pedras, textos comuns, de coisas comuns, para que outros possam simplesmente ter material para conseguir reconstruir o idioma e os caracteres, a fim de ler as mensagens importantes.

Faça muitos desenhos. As histórias são melhor perpetuadas com imagens autoexplicativas.

Escreva em objetos de barro ou cerâmica - vasos, potes, esculturas. Eles resistem ao tempo e chamam a atenção, demonstram que a fonte é humana.

Enterre, para que não os encontrem tão logo.

Não use papel nem tinta, nem mídias digitais. Eles são os que perecem mais rapidamente, e daqui 300 anos certamente não mais transmitirão mensagem alguma.

E tenha a certeza de que daqui alguns milênios alguém vai olhar aquilo e achar que você era um primitivo que escrevia no barro e na pedra.

08/01/2010

O mistério da baunilha

Eu não entendo a baunilha. Não sei se é um cheiro ou um gosto. Ela é definida pelos substantivos que menos definem algo para mim: essência e aroma. Embora não tenha gosto de fato, tampouco um cheiro facilmente descritível, sua presença em qualquer coisa é marcante.

Para mim, a baunilha é como uma astronave que me conduz a uma centena de pontos diferentes da minha vida. Basta uma mordida em um bolinho ou uma colherdada de alguma sobremesa para que eu me submeta a momentos que nem sabia que se encontravam em minha memória. Me lembro de ser criança e estar na casa do meu avô e, no mesmo segundo, de um café rápido que tomei em uma manhã, antes de ir para a faculdade. Depois essas memórias descem pelo esôfago junto com o alimento e umas imagens traiçoeiras confundem a minha visão.

Se lembrança tem gosto, é de baunilha.

07/01/2010

No Portão 1 da USP

Vim caminhando da estação Cidade Universitária até a entrada da USP e me deparo com aquele bicentenário foco de alagamento no cruzamento da Afrânio Peixoto com a Alvarenga. Do outro lado da rua, um ônibus aguardava no semáforo. Corri e bati na porta, e o motorista fez um sinal de negativo com o dedo. Berrei: "me ajuda a cruzar a enchente, não consigo atravessar a pé!". E ele balançava a cabeça pra qualquer lado e me acenava com o dedo, como se não me ouvisse. Berrei mais alto. Uma hora ele se encheu e abriu a porta:
- Que você quer? Não posso pegar passageiro aqui!
- Só me ajuda a passar pela enchente, estou com roupa social...
- Não posso, vc acha que é assim, a gente dá carona pra qualquer um?
- Nao quero carona!! São 50 metros! Você pára depois da poça e eu desço...
- AAAAHHH mas ali é que eu não posso parar mesmo! Você tá achando que pode fazer essas coisas? Não pode, é meu emprego....
- Tá, falou. Tomara que você não precise nunca de ajuda.
- Não é nem por mim, é que não pode... [blá blá que eu não fiquei pra ouvir]

Entrei na USP, dane-se.
Pensei em pegar um ônibus no ponto, ou em ir a pé pra casa... Nenhuma opção era boa. O ideal era pegar na Vital Brasil, mas tinha que chegar até lá. Meu bilhete único acabou e aí eu seria obrigado a pagar duas passagens, sendo uma delas só pra me levar duas quadras, isso eu me recuso.

Então vi um cara no portão da academia de polícia, e fui até ele
- Opa... tudo bom?
- opa...
- O senhor não me deixaria cruzar por dentro da academia só para chegar do outro lado? Não consigo passar pela enchente a pé...
- Ahhh, não dá, sabe por que? Eu acabei de fechar a academia toda... como vai passar até lá se eu já fechei tudo?
- Eu sei, é que pela rua não dá...
- Mas e aí, eu já fechei tudo... Eu não vou abrir a academia par você passar, né, já fechei todas as portas, essa aqui é a última...
- Tá bom, deixa, brigado.
- Você queria o que, que eu abrisse tudo? Não posso, eu já fechei tudo, fechei a academia toda! Olha a hora!
- Tudo bem, eu não sabia, deixa, obrigado
- Obrigado eu! Mal-educado....

Fui novamente no cruzamento, pedi para um outro motorista de ônibus que me abriu a porta, cruzou a poça e me deixou em um lugar seco e seguro, e aí consegui voltar pra casa.

Sinceramente, o desleixo público com relação aquele cruzamento que sempre alaga não me incomodou tanto quanto a reação das pessoas que me negaram ajuda. Seus valiosos empreguinhos são ótimos pretextos para a cômoda omissão de um pedido de ajuda que, diferente da grande maioria dos pedidos, não era em nada lesivo. Diferente daquele profissional do semáforo, que faz carinha de triste e pede um trocado, eu não pedi nada senão um pouco de bom-senso.

O Brasil é o seu povo e, portanto, ainda subdesenvolvido.

05/01/2010

Manchetes: "Mogi-Bertioga é liberada". Aff.
Liberada, liberada. Depois de todo mundo subir e descer até pelo meio da mata virgem, liberam. Foda-se. Caiu uma pedra gigante no meio do caminho e se o custo pra liberar isso em tempo do reveillon for de 1 milhão de reais, então que se gaste isso - Já que não usaram nem uma fração disso pra garantir que na época de maior movimento o evento ocorrido não seria possível.

Que o erro básico do brasileiro - que é facilmente medido pelo seu encanto ao ver a meticulosidade de qualquer coisa na Europa - é fazer tudo justo, tudo na conta. Nunca há folga, nunca há margem. É fácil poupar dinheiro assim, cortando esses excessos em um país praticamente sem histórico de cataclismas.

Em um dia de tráfego pesado encontramos a Anchieta e a Mogi-Bertioga fechadas. Uma por causa de um acidente imbecil, de imbecis que trafegam como imbecis e fazem imbecilidades, aí algum imbecil acha que todo mundo é imbecil e então interdita a pista. O outro por causa de chuva, porque desbarrancou, interditou e deixou uma área perigosa.

Quanto pra resolver? Um milhão? dois, três, dez? Acho que isso é a quantidade de carros que trafegaram nesse momento - o gasto com combustível por todos eles, em reais pode ser estimado em este número multiplicado por cem.

Enquanto o mundo lá fora está enfrentando terremotos e guerras e velhos conservadores complexados, a gente toma chuva e morre. E não entende porque falam que tal estrada é "de primeiro mundo" ou porque aquele produto é "gringo". E o segredinho é simples, é sovinagem. O Brasil, de fato, eu não sei, mas São Paulo sim, posso afirmar com convicção, é um aglomerado de pão-duros.

Quando você estiver caminhando na chuva e se abrigar embaixo de uma marquise, pode verificar que o prédio que a projeta tem no mínimo cinquenta anos de idade. Naquela época ainda pensavam nisso, no mínimo. Hoje em dia a gente tem de lidar com coisas simples da natureza da maneira mais burra. Muita gente gasta hoje em dia mais de vinte mil reais em um guarda-chuva de luxo, com rádio, e ainda paga IPVA por ele. E não é pouca essa gente.

Eu não vou ser imbecil como alguns imbecis que conheci por aí que dizem que gastam muito dinheiro com bobagem enquanto muita gente morre de fome - mesmo porque nunca ouvi falar de ninguém que realmente morreu de fome. Vou dizer é o seguinte: Gastam o dinheiro com bobagem porque ela parece ser mais barata do que se gastar com coisas de utilidade pública, compartilhável. Se o que se lucra com a mão de obra infeliz do brasileiro não se reverte para beneficiá-lo com o mínimo, tipo proteger da chuva, então não está servindo é pra nada.

Faça a conta: Pense numa suposta aplicação onde está colocada alguma verba para administração pública. Essa aplicação rende surreais 26% ao mês. Ao final de um ano completo, quantas pessoas deixaram de aproveitar dessa verba, porque morreram de velha?

20/12/2009

Das poucas vezes que eu me vi no mato em meio aos bovinos, não soube o que fazer. Me lembro quando ainda era moleque e estava com uns poucos amigos, alguns mais capiaus, explorando trilhas. Fomos cercados por uma quantidade razoável de bois e vacas, não sei bem quantos, mas quando me dei conta estava rodeado deles. Rodeado intencionalmente; eles deram a volta na gente, era intimidador. Aí algum doido resolveu pegar uma pedra e jogar, elas se afastaram e saíram de circulação, e continuamos a trilha.

Na última vez, me lembro que eu estava encabeçando a trilha. Sei lá pra onde, exatamente. Aquela estrada podia dar em qualquer lugar. Mas as vacas começaram a me rodear e fiquei assustado. Tentei mostrar alguma soberania, mas estava num relevo desfavorável e me sentia mais ameaçado do que conseguia me fazer intimidador. A Pedra do Baú tem seus mistérios, e alguns deles não são em seus aclives, mas no sopé. Já fui castigado no mesmo lugar por vespas que se mantêm até hoje em minha memória e no meu tegumento, e toda cautela é importante.